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Fronteiras e Horizontes

Fiz esse blog para ir longe, até onde os olhos e o entendimento alcançam, porque as palavras ampliam os horizontes, e atravessam fronteiras quando fazem sentido. Você pode gostar ou não, mas o ideal seria comentar. Beijos!

Fronteiras e Horizontes

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24
Jun19

FRAGMENTOS

Guerreira Xue

Ao perceber os antigos fragmentos da vida

Em velhas recordações de um tempo distante

Aquelas feridas de alma que me faziam chorar

Compreendi eu com o tempo

Que as lembranças enterraram-se por querer

Os meus olhos agora marejaram por um instante

Invadidos por memórias tristes e inúteis

Experiências que sequer valiam lembrar

Ainda bem que a esperança um dia nos socorre

Para que de novo tornemos a acreditar

Éramos muitos, mas éramos sós

E os filhos que um dia foram indesejáveis

Tornaram-se pais

Para o legado de a tortura continuar

Porque semear a terra com sangue e lágrimas

Era o destino de todos nós

O amor era um sonho

Um desafio que na miséria desses longínquos dias

Era praticamente impossível de alcançar

Os Joãos, as Marias, os josés e as Teresas

Vislumbro uma gente humilde e escravizada

Que no jugo da pobreza perderam a fé

E aquilo que era uma dor das profundezas

Foi hoje finalmente desenterrada.

fragmentos.png

20
Mai19

FILHA DO VENTO/por Thais Matarazzo

Guerreira Xue

 

Olá gente amiga. Trago aqui um pequeno conto da escritora Thais Matarazzo. Eu não preciso dizer nada, porque as palavras dela já dizem sozinhas. Espero que apreciem sem moderação.

Grande abraço.

Conto extraído do livro “Abandonados na Roda: destinos” – vol. 2 (Matarazzo, 2019), de Thais Matarazzo.

https://www.facebook.com/thaismatarazzosp

Ela gostava de escrever os seus poemas quando a noite era de luar, tanto faz se no frio ou no calor.
A lua era presença obrigatória para a sua produção, sendo a sua parceira.
Cecília era uma das órfãs que vivia no Asilo dos Expostos, instalado numa ampla chácara Wanderley, no bairro do Pacaembu, em São Paulo. O dormitório feminino era coletivo e ficava no lado direito do velho casarão. Nele dormiam crianças e adolescentes de todas as idades. Cada utente possuía uma cama de ferro e um criado mudo, que incluía uma gavetinha, era ali que Cecília guardava os seus poemas, em papéis soltos ou em pequenos cadernos.
Durante o dia, Cecília e suas colegas estudavam e aprendiam trabalhos domésticos e manuais. Quase todo o serviço de limpeza era executado pelos internos. Cecília também tinha que auxiliar nos cuidados com as crianças pequenas, trabalho que não apreciava muito.
A jovem era sonhadora e tinha um espírito livre. Era rebelde e inteligente, aprendeu a não contrariar e nem responder para não “bater de frente” com as religiosas que administravam o asilo. Mas nunca concordou com às regras e à catequese das freiras, achava que o mundo era muito mais interessante do que o ambiente do orfanato, que considerava mais “um convento”.
Certo dia, quando já estava com 17 anos, tomou coragem e foi conversar com o diretor. Solicitou informações sobre o seu registro no Livro de Matrícula dos Expostos, desejava saber algo sobre a sua origem. O pedido foi deferido, o diretor informou que ela foi deitada na Roda dos Expostos em 8 de outubro de 1883, quando as instalações da Santa Casa ainda eram na Rua da Glória, na Liberdade. Cecília foi deixada com um papel, com a declaração de que ela “seria procurada ao seu tempo”. O batismo aconteceu dois dias depois, na matriz da Sé, tendo como celebrante o padre Manuel de Abreu, a menina recebeu o nome da madrinha, Cecília Leitão, e o padrinho foi Santo Antônio.
- É somente o que consta, minha garota.
- Ser procurada ao seu tempo... Há quanto tempo? Já tenho 17 anos e “esse tempo” nunca chegou, não é mesmo, senhor diretor?
Mesmo sentindo um nó na garganta, o sisudo senhor replicou.
- Está satisfeita com as informações, Cecília?
A garota o olhou fixamente, de maneira séria. Ela agradeceu e retirou-se da sala da diretoria. Cecília sentiu “o grande vazio do mundo”. Correu para o dormitório feminino e chorou... ali sozinha, na “solidão que sempre a acompanhava”.
Sabia que estava próximo o momento em que teria que deixar o asilo. Naquele mesmo dia, ao final da tarde, correu para um local afastado dentro da chácara, sentou-se debaixo do pé de manacá - que estava esplendidamente florido - localizado no cimo do monte de onde se avistava a Serra da Cantareira...
Angustiada em seus sentimentos, desejando traduzir aquilo que se passava em seu coração, mente e alma, indagava-se sobre a sua solidão, sobre a falta de referências sobre as suas raízes... Quem seria a sua mãe? Qual seria o seu nome?
Com lágrimas nos olhos, não esperou pela lua, e proferiu esses versos:

Escrevi teu nome no vento
E ele levou minhas palavras
Evaporou na nuvem do esquecimento
Ah, o vento sem sentimento...
Não sei de onde vim
Nem sei para onde vou...
Daqui a pouco ganharei o mundo
Não sei se ele é raso ou profundo
Como ele irá me devorar?
Serei livre para sempre
Sem âncoras para aportar
Sou uma filha do vento
Irei para onde ele me soprar...

 

CECI.png

Foto: personagem Cecília. Domínio público

 

17
Mai19

HOMENS, SEDE HUMANOS/Jean Jacques Rousseau

Guerreira Xue

O grupo constituído pelos escritores  Hilda Milk, Thais Matarazzo, Ana Jalloul, do historiador J Rodrigo Alves,  da dramaturga Carmem Toledo e do ativista cultural Gilberto Canteiro apresentou ontem uma pequena encenação de Jean Jacques Rousseau

Uma peça curta adaptada por Carmem Toledo (@carmem.toledo) foi apresentada nessa quinta-feira, 16/05, às15:00, durante o Sarau Cai na Roda, no Museu da Santa Casa.

O trecho apresentado é basicamente uma explicação do autor, por ter abandonado seus cinco filhos na Roda dos enjeitados em Paris.

O valor arrecadado foi destinado a restauração do acervo do museu.

O evento é promovido pelo Coletivo São Paulo de Literatura.

 

End: rua Cezário Mota Jr., 112 Vila Buarque São Paulo

Haverá nova apresentação no sábado dia 18/05 às 10:00, o que culmina com o lançamento oficial do  livro novo da escritora Thais Matarazzo

ABANDONADOS NA RODA vol. II

O livro traz um apanhado dos registros reais das crianças deixadas na roda dos expostos da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com ficção criada pela autora, uma vez que pouco se sabe do destino da maioria daqueles se saíram adultos da instituição.

A roda propriamente dita, acabou por salvar muitos recém nascidos da morte. E a sociedade ainda tão desigual, sofre até os dias de hoje com números alarmantes de infanticídio.

 

Quer assistir e se emocionar? Então vem!

peça1.jpg

 

19
Abr19

Cade O Índio Que Morava aqui?

Guerreira Xue

Todos querem estar bem na foto, estampados na mídia com caras de plástico, ou plástica se preferirem, os salvadores do terceiro mundo, o "pai" dos pobres, e a mãe não sei lá das quantas, e está tudo muito bom, está tudo muito bem, mas e o direito dos índios?

-Quem quer saber? Manda um memorando, faz favor. Isso tem que protocolar, passar pelas vias legais e não pode ser resolvido assim, da noite para o dia! Como se a questão "indígena" fosse nova.

Ganha-se muito dinheiro cultivando a pobreza a miséria, e a seca, com os negros, brancos e os chineses e bolivianos, numa escravidão muito bem regulamentada neste país.

Como bem se sabe os índios não dão lucro, e ainda estão naquela terra toda, imagine só!

"O povo gosta de grandes obras então construiremos uma grande usina, todos ficarão tão orgulhosos". Isso é ser brasileiro, buscar o progresso a qualquer preço.

O presidente ainda não resolveu a questão do emprego, então está dando continuidade ao auxílio. Não sou contra o auxílio, faz favor, desde que se crie mecanismos para qualificar e recolocar estas pessoas no mercado de trabalho, porque essa ajuda, o auxilio, uma hora acaba, não há "caixa" que aguente só tirar e não repor. Mas tornemos à questão dos índios. ]

Dizer palavrões agora seria uma ignorância de minha parte, pois tenho que ser "lúcida" e objetiva. Quando vão entender que os índios são nossa gente? Jogar uma bomba na casa destes políticos, seria um crime Federal sem sombra de dúvida, mas eles podem, dinamitar, fazer isso com a casa dos índios? Pois estão fazendo agora, construindo uma grande Usina Hidrelétrica.

Somos todos índios neste pais, podem mentir se quiser, ter vergonha de ser, mas são todos Tupinambá, Matipu, Apium, Kariri, Kalabaça, Tabajara, Tapeba, Pitaguary, Tremembé, Kanindé, Munduruku, Carijós, Potiguar, Guaranis, Kaigangs e muito mais, eram em torno de duas mil nações ocupando nosso território por ocasião do descobrimento.

O estrangeiro não manda nada, e mesmo assim, nós mesmo vamos matar nossos ancestrais, os primeiros donos da terra, se não tomarmos alguma atitude no que se refere a questão dos Índios e a construção da famosa Usina Hidrelétrica Belo Monte, em Vitória do Xingu, no Pará.

Isso ainda está longe de terminar, enquanto houver um índio para reivindicar.


28/05/2013
Imagem da Net

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12
Abr19

ÚRSULA por MARIA FIRMINA DOS REIS

Guerreira Xue

Segundo as mídias sociais, o livro de ficção mais vendido no Brasil e no mundo em 2018 foi "Úrsula" de uma autora brasileira maranhense. Achei por bem trazer aqui um pouco da história dessa autora.

 

Maria Firmina dos Reis nasceu na Ilha de São Luís, no Maranhão, em 11 de março de 1825. Foi registrada como filha de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Era prima do escritor maranhense Francisco Sotero dos Reis por parte da mãe. Em 1830, mudou-se com a família para a vila de São José de Guimarães, no continente. Viveu parte de sua vida na casa de uma tia materna mais bem situada economicamente. Em 1847, concorreu à cadeira de Instrução Primária nessa localidade e, sendo aprovada, ali mesmo exerceu a profissão, como professora de primeiras letras, de 1847 a 1881 Em 1859, publicou o romance Úrsula, considerado o primeiro romance de uma autora do Brasil. Em 1887, publicou na Revista Maranhense o conto "A Escrava", no qual descreve uma participante ativa da causa abolicionista.

Aos 54 anos de idade e 34 de magistério oficial, anos antes de se aposentar, Maria Firmina fundou, em Maçaricó, a poucos quilômetros de Guimarães, uma aula mista e gratuita para alunos que não podiam pagar: conduzia as aulas num barracão em propriedade de um senhor de engenho, à qual se dirigia toda manhã subindo num carro de boi. Lá, lecionava às filhas deste, aos alunos que levava consigo e a outros que se juntavam. A acadêmica Norma Telles classificou a iniciativa de Maria Firmina como "um experimento ousado para a época". Maria Firmina dos Reis participou da vida intelectual maranhense: colaborou na imprensa local, publicou livros, participou de antologias, e, além disso, também foi música e compositora. A autora era abolicionista: ao ser admitida no magistério, aos 22 anos de idade, sua mãe queria que fosse de palanquim receber a nomeação, mas a autora optou por ir a pé, dizendo a sua mãe: "Negro não é animal para se andar montado nele."Chegou também a escrever um Hino da Abolição dos Escravos.

 

Maria Firmina dos Reis morreu, cega e pobre, aos 92 anos, na casa de uma ex-escrava, Mariazinha, mãe de um dos seus filhos de criação. Obs: Maria Firmina dos Reis é a única mulher dentre os bustos da Praça do Pantheon, que homenageiam importantes escritores maranhenses, em São Luís.

" Úrsula, pode ser considerado o primeiro romance de autoria negra e feminina do Brasil, além de ser o primeiro de cunho antiescravista, foi publicado em 1859 na cidade de São Luís. É também, o romance inaugural da chamada literatura afro-brasileira – entendida, aqui, como a produção literária afrodescendente que tematiza a negritude a partir de uma perspectiva própria. Organizado em vinte capítulos, pode ser dividido em quatro momentos distintos. Mas é na quarta parte, que se nota a riqueza do romance de cunho antiescravista, através de uma solidariedade particular de Maria Firmina dos Reis para com os oprimidos, em especial as mulheres e os africanos e afrodescendentes escravizados."

05
Abr19

MEUS LIVROS NOVOS

Guerreira Xue

Gostaria de convidar aos amigos leitores para conhecerem os meus novos títulos disponíveis no Amazon. Alguns são pequenos contos, com pequenos preços mesmo. Há dois livros físicos do "O ogro e tecelã" um na versão português e outro na versão espanhol. Espero que gostem.

18
Fev19

ESTRANHEZAS DO DIA A DIA

Guerreira Xue

Situações acontecem o tempo inteiro em nossas vidas. No caso de escritores, tudo parece motivo de  contar. Então senta que lá vem uma história muito variada, e cheia de surpresas.

No sábado último fomos a um sarau solidário no museu da Santa casa de São Paulo, de nome  "sarau cai na roda". Um evento criado por minha amiga e editora Thais Matarazzo, com fins de doação para o restauro de livros dos expostos. Para os despistados de plantão, os livros dos expostos comportam registros desde 1825 a 1960, de crianças que eram abandonadas na roda dos Expostos da entidade, que segundo a diretora do museu estão contidos  4.696 registros. Pois bem... Meu filho Gustavo e eu fomos, e foi muito gostoso poder ouvir poemas e músicas, recitar também.

Na saída a chuva engrossou e  por conta que ninguém levou o guarda chuvas fomos ficando nas dependências do prédio conversando com os demais que também ficaram a espera. O sarau terminava as 17h00min, mas eram 20h00min e nada da chuva dar trégua. E nossa barriga roncava de fome. Não tivemos mais o que fazer,  o jeito era sair na chuva até o metrô mesmo.

O Gustavo resmungava no celular com algum amigo; não basta ser solidário, tem que ficar molhado também!

Chegamos finalmente a estação de metrô encharcados. Até chegar a casa eram três  conduções, ainda bem que não precisávamos sair para fazer as baldeações. No caminho o Gustavo e eu planejamos tomar um  banho quentinho, pois estávamos com frio  por conta do ar condicionado interno, pedir pizza e beber aquele vinho maravilhoso que nos esperava silencioso em casa. E a barriga velha só roncava!

Ao descer na estação de casa perguntei se podíamos trocar a pizza pelo churrasquinho, que afinal estava tão pertinho e já pronto na porta. O Gustavo que estava verde fome disse: que seja!  

Não havia ninguém na  banca da moça do churrasco. Pedimos e fomos comendo ali mesmo. Conversando amenidades com a dona. Aquilo era o paraíso na terra, nem lembrava mais que estávamos molhados, e nem mais frio tínhamos. O melhor churrasquinho de nossas vidas.

De repente aparece um tipo estranho com uma menininha e chama a dona. Ela pede licença e vai. O sujeito a puxa pelo braço e depois ouvimos seu grito. Ela logo volta transfigurada. Pergunto o que houve, mas já imaginando um assalto ou sei lá o que! O meu cabelo arrepiou na hora. Ela diz que é nada, mas já chorando, e ligava para a filha dizendo: vem logo aqui, preciso de ajuda agora! Fiquei tão apavorada, que me deu vontade de sair correndo dali. E eu insistia: diz logo o que houve mulher? Ela então conta que o marido tinha acabado de arrancar um dedo, numa máquina de cortar azulejos, e que estava caído na casa deles. Depois disso a pequena começou a chorar e gritar. 

Senti-me num filme de terror. Queria sair logo dali, mas perguntei o mais calma que pude: quer que te façamos algo, diz.

A mulher que não sabia se atendia aos churrascos, a pequena que gritava, ou ao marido que devia estar lá caído. Ela então acalmou a pequena e disse; fica aqui com a tia minha filha e cuida o churrasco, se pegar fogo põe água, que eu já volto. A filha logo disse; mas eu não sei fazer mãe. A mãe gritou já do outro lado; a tia faz. A tia no caso ali era eu! Eu sem muito que dizer, falei para levarem o dedo junto para o hospital. Gustavo visivelmente nervoso falava para a pequena que tudo ficaria bem.

A tal filha com quem ela falava anteriormente ao telefone apareceu, e contado o acontecido, ela se incumbiu da barraca. Gustavo e eu pedimos mais um churrasquinho para levar. Até ai ninguém conseguia encontrar o dedo perdido do homem. Que lástima!

Não sei dizer quanto tempo durou esse episódio, mas me pareceu uma eternidade. Ao despedirmo-nos ela agradeceu pelo apoio, e viemos para casa com a promessa de voltar para saber noticias. 

Ao chegarmos a casa, tínhamos uma sensação de irrealidade. Esse foi um dia muito estranho.

 

Resultado de imagem para dia de chuva

15
Fev19

COMO UM CAVALO SALVOU A VIDA DE UM PRESO POLÍTICO por Evaldo Novellini

Guerreira Xue

Li recentemente um HQ, um livro em quadrinhos de nome “Como um cavalo salvou a vida de um preso político".
Esse trata de um pedaço ínfimo e não menos triste de nossa história. As pessoas ainda pensam que o holocausto foi o maior terror da humanidade. Talvez. Mas grandes atrocidades são cometidas em todos os tempos, em nome do patriotismo e da liberdade, e se é que essa existe, nunca custou barato.
Na era Vargas o Brasil estava sob forte ditadura, e os comunistas resolveram então derrubar o governo. Em novembro de 1935 estoura a revolução em Natal (RN) seguindo por Recife e Rio de Janeiro que era Distrito Federal na época. Sem o apoio dos populares, os revoltosos foram derrotados pelos legalistas e em poucas semanas seus lideres identificados e presos.
Harry Berger um americano, que na verdade era alemão e chamava-se Artur Ewert era um dos lideres da tal revolta. Como era um experiente militante de esquerda, veio enviado pelo Comitê Executivo da Internacional Comunista ao Brasil, para junto com Julho Prestes planejarem a revolução.
As torturas impingidas aos presos políticos que se seguiam eram de fazer inveja a um führer alemão. Não haviam leis de direitos humanos, mas haviam leis de direitos dos animais.
Essa é uma história triste e real. Alguns homens preferem os animais aos homens, isso é certo. E alguns preferem entender que direitos todos tem indiscriminadamente. E esse livro conta exatamente isso.
Às vezes esquecemo-nos do quanto já se sofreu para a sociedade evoluir, se é que evoluiu mesmo. Lembrei-me da nossa fragilidade frente aos nossos iguais. E com certeza os cavalos não se matam. Nós nos matamos, e matamos os cavalos.

https://www.facebook.com/Como-um-cavalo-salvou-a-vida-de-um-preso-pol%C3%ADtico-1092028024148460/

   

 

 

 

12
Fev19

PERMANÊNCIAS OUTONAIS por Vania Clares

Guerreira Xue

Ao concluir a leitura desse livro, me veio à cabeça duas escritoras, a Clarice Lispector e Virginia Woolf, pela tal introspecção do personagem.

O primeiro texto me reporta para uma fênix que morre aqui e nasce ali, numa sequência interminável.

A autora brinca com a possibilidade do suicídio, e o interessante que um mero detalhe faz o personagem mudar de ideia, na fragilidade da sua vida em face de problemas do cotidiano.

A narrativa em terceira pessoa distancia, e nem por isso é menos intima e pessoal.

Foi difícil de ler por causa da forte carga emocional do personagem, que ora passa por grandes tristezas e mesmo assim segue adiante.

É uma história feminina e de superação, mas é uma superação não definitiva, pois somos vulneráveis e outros desafios haverão de aparecer.

Frágil sempre e andando pelo meio fio. Adorei !

https://www.facebook.com/vania.clares

A imagem pode conter: árvore, céu, atividades ao ar livre, texto e natureza
08
Fev19

Fernando Pessoa e Maria José

Guerreira Xue

Quero hoje falar de Fernando Pessoa. Uma pessoa que teve tantos nomes e tantas vidas dentro de um corpo só. Diria eu que era um ninguém, possuído por uma legião de pessoas, pois são mais de 120 heterônimos (completos ou incompletos) detectados em toda sua obra. Ontem conversava com amigo a respeito, porque adoro falar de meus eleitos, para os meus preferidos. Dizia o Robert Hass, um poeta americano: "outros modernistas como Yeats, Pound, Elliot inventaram máscaras pelas quais falavam ocasionalmente... Fernando Pessoa inventava poetas inteiros." Salve Salve Fernando Pessoa.

Deixo abaixo "A carta da corcunda para o serralheiro" de Maria José, o único heterônimo feminino desse, que é considerado o mais universal poeta português do nosso tempo. Apreciem sem moderação! ✍️🤓

 

A carta da Corcunda para o Serralheiro

Senhor António:

O senhor nunca há de ver esta carta. Nem eu a hei de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.

O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe, mas não sabe a valer. Tem-me visto á janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja d’ela, mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir á rua e falar consigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.

O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gosta das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.

Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez, mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.

Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além d’isso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me doe, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.

Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter – e agora menos que nem vida tenho – gostava de saber tudo.

Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isto, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importância em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só á janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos ás avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.

Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou á pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.

Tantas vezes, o senhor não imagina, andei á espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.

Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar á altura da janela... passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam a minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu ás vezes me envergonha de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dê em alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.

Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distraída.

Ainda me lembro d’aquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.

Não é por ser corcunda que estou aqui sempre á janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes, dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até  quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas á vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é, não como tinha vontade de ser.

(…)

– E enfim porque lhe estou eu a escrever se lhe não vou mandar esta carta?

O senhor que anda de um lado para o outro não saber qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou á janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e aquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui á janela por tirar de lá.

O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm batizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e ha artigos assignados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isso o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da agua.

Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de vez em quando me dizer adeus na rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vae se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.

A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja, porque meter-se alguém conosco é a gente ser mulher, e eu não sou mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vê, valha me Deus.

O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença! ) o Antônio da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar á janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir a vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.

Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.

Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.

Aí tem, e estou a chorar.

Maria José

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, chapéu e óculos de sol

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