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Fronteiras e Horizontes

Fiz esse blog para ir longe, até onde os olhos e o entendimento alcançam, porque as palavras ampliam os horizontes, e atravessam fronteiras quando fazem sentido. Você pode gostar ou não, mas o ideal seria comentar. Beijos!

Fronteiras e Horizontes

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08
Mar19

A MORTE DA FÉ

Guerreira Xue

É fim de tarde e as crianças correm pelo passeio do parque. Mais um dia quente que se vai. Os balanços vão as alturas com os gritos de alegria dos pequenos, e enquanto suas mães conversam sobre os assuntos mais variados, as bicicletas correm livremente para lá e cá. Todos os dias são assim nessa cidadezinha que mais parece o paraíso. Mais adiante dois velhotes jogavam cartas na pacata Praça dos Pombos.

- É sua vez, joga logo velho. Dizia um - Espera que eu estou pensando aqui -dizia ou outro - Na morte da bezerra é? -Não, penso na morte da fé. - O outro se riu.- Que tu quer dizer? Entre em qualquer igreja da cidade e verás como estão lotadas de "crentes".  Gente com fé demais é o que mais tem por todo canto. O velho quase susssurava; - As igrejas estão lotadas sim, mas de covardes que pensam que estão a salvo das guerras e da miséria que assola o mundo. Pessoas egoístas que só pensam na própria barriga, que se escondem dos problemas das sociedades que os cercam, e com isso estão esperando uma espécie de milagre do divino Espírito Santo. Me diz! Quem tem fé, ou coragem para assumir seus sentimentos. Ora quem tem realmente fé, tem atitude e contribui para a mudança do mundo, não se esconde dele. O que voce me diz do amor superficializado em relações descartáveis, e a lealdade passa longe de tudo. O homem tornou-se uma ilha deserta, seco e faminto de tudo que ele mesmo matou.

O amigo retruca; - Então está bem, amanhã tu levanta cedo e sai à rua, tente exercer essa fé de que falas, para vermos o que acontece.  Existem várias possibilidades de morreres: Podes ser assaltado por um garoto, que por causa de um celular te enfia um tiro bem no meio das fuças, ou também pode ser  uma bala perdida que fatalmente te ache, e ninguém vai querer nem saber de onde veio,  então se for da polícia ou não,  tanto faz. O que manda meu velho  é o tamanho da ganância, porque de resto é tudo conversa.

- Tens razão a ganância faz a guerra, produz à fome, as armas, as drogas, e arranca a alma de dentro do homem. No fim das contas nós dois também estamos incluídos entre os covardes, não é verdade?

- De certa maneira sim, pois todos nós somos criados para ter medo. Medo de dizer o que pensamos, dizer o que sentimos realmente, fazer o que se deve, e justamente por causa do medo é que o mundo anda nesta bagunça. Tu já imaginaste se tudo tivesse algum valor? -Como assim? Tudo já tem seu valor, e custa bem caro.

-Eu digo se tudo tivesse o mesmo valor. Tanto faz tu comprares uma comida, como pagar por uma roupa, ou morar na zona sul ou zona leste da cidade? - Ahh entendi, então ficaríamos sem os ricos, é isso? -... E sem pobres, que tal?  Existem muitos excessos na sociedade. A moderação seria uma medida estratégica de igualdade social, e igualdade social se faz com fé, fé em mim, em tu, e em todos a nossa volta.

Estupefato o amigo velho prossegue: -Acorda velho, e joga de uma vez, porque este mundo da tua cabeça vai demorar em acontecer.

27
Fev19

MARIA PERNAS DE SARACURA

Guerreira Xue

Quando a Maria pernas de saracura apareceu pela primeira vez naquela escola foi um alvoroço geral, pois todos achavam-na magra demais, escura demais, feia demais, desengonçada. Ao caminhar então, parecia mesmo uma saracura.

As meninas a ignoravam-na, nem todas claro, pois tinha uma que fazia questão de dizer, de maneira rude e direta, que não andava com negra.

Os grupo das negras era fechado, não aceitavam-na por ela não ser da "família", os meninos faziam troça de suas pernas e toda vez que por ela passavam convidavam-na para pescar, sendo ela o caniço da pesca.

Maria tinha uma cor bronzeada inverno e verão, tinha cabelos fartos lisos e negros, tinha também uma boca grossa, o que rendia-lhe mais apelidos, e eram do tipo "beiçuda, gamela, boca de galocha, bicuda, etc... etc.."

Maria chorava de raiva deles, e de pena de si, e muitas foram as vezes que brigara na escola, e pasmem, a "pernas de saracura" batia em que quisesse.

Foram anos bem difíceis até passar a adolecencia.

Mas um dia o tempo passa e a idade vai moldando o corpo, e já com 16 anos Maria foi abordada em pleno calçadão de Porto Alegre por uma moça que deu-lhe um cartão para fazer um teste para fotografia. Ela não podia estar mais surpresa, porque como ela podia fazer qualquer teste para fotografia se era feia? "Não vai te custar nada", disse a moça.

Passado dois dias, Maria foi para fazer o tal teste, e para a sua surpresa, ela foi contratada para ser modelo de revistas, pois para passarela não tinha altura ideal.

Os primeiros cashês não eram grande coisa, mas a medida que apareciam novas ofertas, as cifras também aumentavam. E a mocinha fazia comerciais de cosméticos, roupas, sapatos, perfumes ...

Que dizer dos tempo de escola? Quase nada, pois foi um alivio ter terminado.

Maria nunca mais viu ninguém daquela época, pois a vida deu-lhe um rumo bem diferente e foi para longe. Hoje é uma mulher madura, linda e bem sucedida, mas ainda traz dentro de si a Maria pernas de saracura, a negra que não era negra, o caniço, a boca de galocha, pois acha que isso dá-lhe um certo equilíbrio, afinal ela se achava tudo o que os outros viam, e o que não viam. E muito mais importante que a aceitação do outro é a coerência que trazemos em nós.  

As vezes Maria lembra de uma frase feita da avó, e ri:"se nem tudo que brilha é ouro, nem tudo que cheira é merda".
A imagem pode conter: pássaro e atividades ao ar livre

18
Fev19

ESTRANHEZAS DO DIA A DIA

Guerreira Xue

Situações acontecem o tempo inteiro em nossas vidas. No caso de escritores, tudo parece motivo de  contar. Então senta que lá vem uma história muito variada, e cheia de surpresas.

No sábado último fomos a um sarau solidário no museu da Santa casa de São Paulo, de nome  "sarau cai na roda". Um evento criado por minha amiga e editora Thais Matarazzo, com fins de doação para o restauro de livros dos expostos. Para os despistados de plantão, os livros dos expostos comportam registros desde 1825 a 1960, de crianças que eram abandonadas na roda dos Expostos da entidade, que segundo a diretora do museu estão contidos  4.696 registros. Pois bem... Meu filho Gustavo e eu fomos, e foi muito gostoso poder ouvir poemas e músicas, recitar também.

Na saída a chuva engrossou e  por conta que ninguém levou o guarda chuvas fomos ficando nas dependências do prédio conversando com os demais que também ficaram a espera. O sarau terminava as 17h00min, mas eram 20h00min e nada da chuva dar trégua. E nossa barriga roncava de fome. Não tivemos mais o que fazer,  o jeito era sair na chuva até o metrô mesmo.

O Gustavo resmungava no celular com algum amigo; não basta ser solidário, tem que ficar molhado também!

Chegamos finalmente a estação de metrô encharcados. Até chegar a casa eram três  conduções, ainda bem que não precisávamos sair para fazer as baldeações. No caminho o Gustavo e eu planejamos tomar um  banho quentinho, pois estávamos com frio  por conta do ar condicionado interno, pedir pizza e beber aquele vinho maravilhoso que nos esperava silencioso em casa. E a barriga velha só roncava!

Ao descer na estação de casa perguntei se podíamos trocar a pizza pelo churrasquinho, que afinal estava tão pertinho e já pronto na porta. O Gustavo que estava verde fome disse: que seja!  

Não havia ninguém na  banca da moça do churrasco. Pedimos e fomos comendo ali mesmo. Conversando amenidades com a dona. Aquilo era o paraíso na terra, nem lembrava mais que estávamos molhados, e nem mais frio tínhamos. O melhor churrasquinho de nossas vidas.

De repente aparece um tipo estranho com uma menininha e chama a dona. Ela pede licença e vai. O sujeito a puxa pelo braço e depois ouvimos seu grito. Ela logo volta transfigurada. Pergunto o que houve, mas já imaginando um assalto ou sei lá o que! O meu cabelo arrepiou na hora. Ela diz que é nada, mas já chorando, e ligava para a filha dizendo: vem logo aqui, preciso de ajuda agora! Fiquei tão apavorada, que me deu vontade de sair correndo dali. E eu insistia: diz logo o que houve mulher? Ela então conta que o marido tinha acabado de arrancar um dedo, numa máquina de cortar azulejos, e que estava caído na casa deles. Depois disso a pequena começou a chorar e gritar. 

Senti-me num filme de terror. Queria sair logo dali, mas perguntei o mais calma que pude: quer que te façamos algo, diz.

A mulher que não sabia se atendia aos churrascos, a pequena que gritava, ou ao marido que devia estar lá caído. Ela então acalmou a pequena e disse; fica aqui com a tia minha filha e cuida o churrasco, se pegar fogo põe água, que eu já volto. A filha logo disse; mas eu não sei fazer mãe. A mãe gritou já do outro lado; a tia faz. A tia no caso ali era eu! Eu sem muito que dizer, falei para levarem o dedo junto para o hospital. Gustavo visivelmente nervoso falava para a pequena que tudo ficaria bem.

A tal filha com quem ela falava anteriormente ao telefone apareceu, e contado o acontecido, ela se incumbiu da barraca. Gustavo e eu pedimos mais um churrasquinho para levar. Até ai ninguém conseguia encontrar o dedo perdido do homem. Que lástima!

Não sei dizer quanto tempo durou esse episódio, mas me pareceu uma eternidade. Ao despedirmo-nos ela agradeceu pelo apoio, e viemos para casa com a promessa de voltar para saber noticias. 

Ao chegarmos a casa, tínhamos uma sensação de irrealidade. Esse foi um dia muito estranho.

 

Resultado de imagem para dia de chuva

15
Fev19

COMO UM CAVALO SALVOU A VIDA DE UM PRESO POLÍTICO por Evaldo Novellini

Guerreira Xue

Li recentemente um HQ, um livro em quadrinhos de nome “Como um cavalo salvou a vida de um preso político".
Esse trata de um pedaço ínfimo e não menos triste de nossa história. As pessoas ainda pensam que o holocausto foi o maior terror da humanidade. Talvez. Mas grandes atrocidades são cometidas em todos os tempos, em nome do patriotismo e da liberdade, e se é que essa existe, nunca custou barato.
Na era Vargas o Brasil estava sob forte ditadura, e os comunistas resolveram então derrubar o governo. Em novembro de 1935 estoura a revolução em Natal (RN) seguindo por Recife e Rio de Janeiro que era Distrito Federal na época. Sem o apoio dos populares, os revoltosos foram derrotados pelos legalistas e em poucas semanas seus lideres identificados e presos.
Harry Berger um americano, que na verdade era alemão e chamava-se Artur Ewert era um dos lideres da tal revolta. Como era um experiente militante de esquerda, veio enviado pelo Comitê Executivo da Internacional Comunista ao Brasil, para junto com Julho Prestes planejarem a revolução.
As torturas impingidas aos presos políticos que se seguiam eram de fazer inveja a um führer alemão. Não haviam leis de direitos humanos, mas haviam leis de direitos dos animais.
Essa é uma história triste e real. Alguns homens preferem os animais aos homens, isso é certo. E alguns preferem entender que direitos todos tem indiscriminadamente. E esse livro conta exatamente isso.
Às vezes esquecemo-nos do quanto já se sofreu para a sociedade evoluir, se é que evoluiu mesmo. Lembrei-me da nossa fragilidade frente aos nossos iguais. E com certeza os cavalos não se matam. Nós nos matamos, e matamos os cavalos.

https://www.facebook.com/Como-um-cavalo-salvou-a-vida-de-um-preso-pol%C3%ADtico-1092028024148460/

   

 

 

 

12
Fev19

PERMANÊNCIAS OUTONAIS por Vania Clares

Guerreira Xue

Ao concluir a leitura desse livro, me veio à cabeça duas escritoras, a Clarice Lispector e Virginia Woolf, pela tal introspecção do personagem.

O primeiro texto me reporta para uma fênix que morre aqui e nasce ali, numa sequência interminável.

A autora brinca com a possibilidade do suicídio, e o interessante que um mero detalhe faz o personagem mudar de ideia, na fragilidade da sua vida em face de problemas do cotidiano.

A narrativa em terceira pessoa distancia, e nem por isso é menos intima e pessoal.

Foi difícil de ler por causa da forte carga emocional do personagem, que ora passa por grandes tristezas e mesmo assim segue adiante.

É uma história feminina e de superação, mas é uma superação não definitiva, pois somos vulneráveis e outros desafios haverão de aparecer.

Frágil sempre e andando pelo meio fio. Adorei !

https://www.facebook.com/vania.clares

A imagem pode conter: árvore, céu, atividades ao ar livre, texto e natureza
08
Fev19

Fernando Pessoa e Maria José

Guerreira Xue

Quero hoje falar de Fernando Pessoa. Uma pessoa que teve tantos nomes e tantas vidas dentro de um corpo só. Diria eu que era um ninguém, possuído por uma legião de pessoas, pois são mais de 120 heterônimos (completos ou incompletos) detectados em toda sua obra. Ontem conversava com amigo a respeito, porque adoro falar de meus eleitos, para os meus preferidos. Dizia o Robert Hass, um poeta americano: "outros modernistas como Yeats, Pound, Elliot inventaram máscaras pelas quais falavam ocasionalmente... Fernando Pessoa inventava poetas inteiros." Salve Salve Fernando Pessoa.

Deixo abaixo "A carta da corcunda para o serralheiro" de Maria José, o único heterônimo feminino desse, que é considerado o mais universal poeta português do nosso tempo. Apreciem sem moderação! ✍️🤓

 

A carta da Corcunda para o Serralheiro

Senhor António:

O senhor nunca há de ver esta carta. Nem eu a hei de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.

O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe, mas não sabe a valer. Tem-me visto á janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja d’ela, mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir á rua e falar consigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.

O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gosta das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.

Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez, mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.

Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além d’isso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me doe, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.

Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter – e agora menos que nem vida tenho – gostava de saber tudo.

Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isto, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importância em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só á janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos ás avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.

Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou á pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.

Tantas vezes, o senhor não imagina, andei á espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.

Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar á altura da janela... passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam a minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu ás vezes me envergonha de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dê em alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.

Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distraída.

Ainda me lembro d’aquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.

Não é por ser corcunda que estou aqui sempre á janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes, dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até  quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas á vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é, não como tinha vontade de ser.

(…)

– E enfim porque lhe estou eu a escrever se lhe não vou mandar esta carta?

O senhor que anda de um lado para o outro não saber qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou á janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e aquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui á janela por tirar de lá.

O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm batizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e ha artigos assignados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isso o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da agua.

Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de vez em quando me dizer adeus na rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vae se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.

A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja, porque meter-se alguém conosco é a gente ser mulher, e eu não sou mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vê, valha me Deus.

O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença! ) o Antônio da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar á janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir a vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.

Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.

Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.

Aí tem, e estou a chorar.

Maria José

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, chapéu e óculos de sol

04
Fev19

A PEIXEIRA E O REI

Guerreira Xue

Esse era um tempo em que os dias passavam sem muito alarido. Com um rei com suas flores, a rainha com seus amores e o povo... Bem o povo com suas dores.

Um tempo onde a vida seguia seu curso quase que mecânico, e porque não dizer hereditário. Quem era pobre seria pobre, e seu filho também, e o filho do filho até o final dos tempos.

Era como se diz hoje "cada um no seu quadrado", e aquele que por acaso não tivesse nada de seu, que se virasse como pudesse. O fato é que todos, sem exceção, haviam de cumprir sua sina.

Voltemos ao entediado rei, este não sabia mais o que inventar, pois se cansara logo de bajulações, economias, estratégias. E ainda o povo pedindo e pedindo...

Seus pensamentos são interrompidos pelo escravo que chega avisando:

-Ela chegou majestade, está na cozinha fazendo a entrega.

Os olhos do rei avivaram-se... Dispensou o serviçal e estrategicamente se dirigiu aos jardins dos fundos, próximo à saída da cozinha.

Sempre gostava de mexer nas belas flores, porém agora isso tinha um sabor diferente. Era qualquer coisa suave, gentil e prazerosa.

O JARDINEIRO

O jardineiro, logo que avistou a peixeira, passou apressado do quintal para os aposentos reais, depois de uma dama lhe fazer da janela o sinal para entrar. Ansiava sempre tanto por este momento, que nem sabia sabia o que era melhor, ou esta corrida até ao quarto dela ou tudo o que depois se seguia, o ritual era sempre o mesmo... Ela esperava à porta por ele, despia-se, ele ficava esgazeado a olhar para tanta brancura e quando voltava a si já ela o tinha empurrava para a cama.

Era ela quem o despia e num instante se punha em cima dela, como se fossem só um.

Não sabia precisar o tempo que demorava toda a cerimonia, mas que ficava nas nuvens, ai isso ficava!

Por ele a vida podia ser só assim, correr do jardim até ao quarto dela, fazer amor, descer á cozinha para comer, ir apanhar um pouco de ar e fazer as necessidades no campo, tomar um banho na água gelada do rio, e voltar para ela. Mas não nasceu com sorte e a sua condição obrigava-o a trabalhar no duro! Tê-la ali tão perto e tão apaixonada tinha sido a grande vitória da vida dele!

A PEIXEIRA

Formosa e segura lá seguia a moçoila, saiote comprido, do povo, rodando ao balanço das ancas para encanto do rei.

Um velho ressequido por guerras de bastidores, conspirações falhadas e outros desamores sentia-se entediado há anos, desde que a Rainha adoeceu e agora aquela moçoila,

Uma rapariga de seus trinta anos, que nunca tivera marido, nem andava pelas más-línguas do burgo. A moçoila enfeitiçava-o e agradava-lhe particularmente…O que ia ao coração da peixeira?

-Olá senhor rei. Disse-lhe com leve sorriso

-Olá senhora peixeira. Respondeu-lhe o rei no mesmo tom.

O rei conhecia a todos no povoado, ou quase... Nunca havia visto esta moça antes.

O primeiro encontro deles foi uma confusão engraçadíssima e foi por conta exatamente disso.

O PRIMEIRO ENCOTRO

O Monarca em questão tinha costume de se aventurar na jardinagem. Quando estava muito alterado dispensava o jardineiro e ele mesmo, para a tristeza das pobres flores, se ocupava das plantas.

É claro que o jardineiro nunca lhe dizia nada, e saia caladito, desejando um bom dia a seu rei, porém pensava consigo mesmo na trabalheira que teria no dia seguinte para endireitar o estrago todo.

A moça passava perto da cerca quando escuta aqueles resmungos, olha em volta e nada. Abaixa-se e percebe o homem devastando as plantas como se fosse decepa-las todas, estaca um instante e pergunta: -Que diabo estas fazendo homem de Deus! Dessa maneira vais destruir o jardim do castelo. Estás com raiva do mundo? Num instante ela tira a tesoura de suas mãos. -Não deves fazer a poda neste ângulo reto, porque quando chover vai entrar água dentro do talo. Sempre em diagonal, veja. Assim quando cair a chuva, ela escorre e não entra.

O rei que estava com um chapéu encobrindo a cabeça, ali ficou escutando. Nunca ninguém havia lhe dirigido à palavra naquela intimidade. Disse com certa insegurança

 -Acho que para jardineiro, eu ficaria bem melhor como rei.

Ela deu uma sonora gargalhada e disse a seguir:

-Acho que este cargo já está preenchido amigo, porém se perder o de jardineiro podes procurar de peixeiro, este está sempre em falta. Tenha mais cuidado com as plantas, trate-as com carinho. Tenho que ir agora, daqui para dois dias eu volto a trazer peixes para o castelo, se ainda não perder o seu emprego até lá, eu te ensino alguma coisa mais de jardins. -Espere, disse-lhe o rei. Mas, a moça corria já em direção à saída, pois tinha outras entregas a fazer. E o rei não conseguiu desfazer o mal-entendido. Ela não o reconhecera.

O segundo encontro, porém demorou um pouco mais a acontecer. O rei tinha seus compromissos e a peixeira, suas entregas. Toda vez que ela passava pelo jardim olhava em volta. O jardim estava bem bonito e nem sinal do desajeitado jardineiro; ou aprendeu, ou foi despedido.

Quando se encontraram novamente foi por acidente, ele estava de quatro no meio dos arbustos e a moça vem, e sem o ver, tropeçou e veio a despencar por cima. Aquilo foi uma agitação geral, a rainha estava na janela quando viu o acontecido, imediatamente mandou os serviçais correrem a ver se o rei havia se machucado, pois a peixeira caiu-lhe em cima um cesto enorme de peixes.

Todos ficaram alterados neste dia. A peixeira e o rei estatelados no chão com peixes por todo lado. A cena era ridiculamente engraçada. Certificando-se que ninguém se tinha ferido, os dois desataram a rir feitos dois adolescentes. Quando os serviçais os alcançam já estavam compostos. As formalidades cumpridas e foi então que moça soube que este era o rei. Desculpou-se cheia mesuras e retirou-se.

-Então este é rei. Pensava ela consigo. -Que desavisada eu sou!

A RAINHA

A rainha e seu marido eram bons amigos. Casaram-se para satisfazer as convenções. Ambos eram príncipes de povos diferentes. Quando se conheceram gostaram-se tanto que fizeram um trato, fossem sempre sinceros um com o outro, pelo fato de serem realezas lhes pesava o fardo de um casamento de conveniência econômica e ninguém, e muito menos o povo, ligava a mínima para os sentimentos de seus reis. No começo o jovem que ainda era príncipe ficou aborrecido, quis se negar a tal acordo, pois teriam de ter filhos. _E teremos. Disse-lhe ela. Cumpririam tudo que mandava o protocolo. Estavam prometidos desde o nascimento, os dois e se viam somente em datas especiais. Quando chegasse o momento, marcariam as bodas. Era isso ou achar outra candidata à altura, para o enlace. E qual era o motivo da proposta da jovem? A princesa nutria afeto pelo jardineiro do castelo. Eis aí o impasse.

O príncipe que até então achava que seria um rei feliz com sua futura rainha, começa a compreender o mundo real.

No seu entender, seus pais eram pessoas felizes no casamento, ou não? Que fazer agora? Como resolver isso?

Pensava que se casando com aquela moça com o tempo e a convivência  iriam gostar um do outro. Porém o coração dela estava preenchido por outro.

Falou com sua mãe na possibilidade de libertar-se de seu compromisso. Sem revelar o motivo, ou prejudicar sua amiga. Por quê? Perguntou a rainha mãe.

Se não te agrada a jovem, te arrumamos outra meu filho. Vamos viajar um pouco. Você as conhece, e decide porque tens tempo ainda.

Começaram então uma via sacra em segredo, pois não desfizera o compromisso com a moça prometida. O jovem príncipe gostara dela. 

Uma das outras moças candidatas ou era feia, ou era velha, ou ignorante, ou tagarela...

Sem alternativas ambos voltaram a se encontrar, o príncipe e a princesa, marcaram então a bodas. E estabeleceram assim, sua cumplicidade na vida.

Hoje rei e rainha, ambos com dois filhos, um rapaz em idade de casar e uma princesinha prometida ao reino vizinho.

 A rainha é cumpridora de seus deveres, amiga do rei e mãe de seus filhos, herdeiros do trono. E sempre protegida e salvaguardada pelo rei, mantem seu jardineiro querido perto de seu quarto e de seu coração.

O rei por sua vez, protegido pelo cetro e pela sociedade machista mantém seus casos, sejam públicos ou secretos, não importa. O povo perdoa o "deslize".

Os serviçais sabiam que o rei não visitava o quarto da rainha, desde o nascimento de sua filha, há anos, então inventaram que ela era adoentada.

Havia sim uma passagem secreta para seus aposentos, mas esta era usada por certo jardineiro.

Agora temos aqui um rei entrado em anos já. Alguma coisa faz seu coração balançar, o encontro daquela peixeira, seria o tédio da vida de rei?...Vai saber!

Sempre que podia ele dava um jeito de encontra-la, conversavam por poucos minutos. Era bom, e ambos pareciam gostar muito.

-Pode um rei virar jardineiro? Disse a moça a sorrir. E o rei responde:

-Pode uma peixeira virar rainha?

-Bem que eu poderia ter sido rainha, sabe. Minha vó o era. Um dia conto-lhe esta história  majestade. E a peixeira contou...

-Minha vó era rainha sim, mas um dia ela desapareceu de seu reino sem qualquer explicação, e coincidentemente, um sábio ermitão que vivia nas redondezas também e nunca mais qualquer um dos dois foi visto pelo reino. Ela cansou de ser rainha e ele de ser ermitão. Só eu sei o que aconteceu, pois sou neta deles. E tenho provas de que sou herdeira dela. A moça tinha guardado em seu poder, joias que sua avó deixara-lhe.

Não sei dizer direito, mas  não me importo de ser rainha, princesa ou peixeira, é claro que ninguém sabe. Eu gosto muito mais dessa liberdade de peixeira.

Eu conheço quase todas as ervas dos campos, aprendi muito sobre as marés, conheço as pessoas agora, e me sinto bem assim.

Os dias passavam e a cada dia a moça contava um pedaço de sua história

-Minha mãe morreu de parto. E cresci com meus avós na floresta, era solitário, mas bom sabe. O meu pai é o melhor pescador destas águas. Quando meus avós morreram, vim morar na aldeia com ele, e desde então faço as entregas, por isso virei a peixeira senhor rei.

 

HORA DA VERDADE

A rainha não deixou de notar alguma diferença no marido, e mencionava seu bom aspecto. Parecia mais jovem até.

Um dia, por acaso ela menciona a moça do peixe e o marido lhe confessa abertamente seus sentimentos pela moça, e conta tudo, desde o primeiro encontro. O mais surpreendente é ver um rei, acostumado a ter tudo, se sentir intimidado por uma simples peixeira.

-Oh! Mas ela pode ser qualquer coisa, não uma simples peixeira.

-Não dormiste com ela ainda?! Perguntou a rainha perplexa. Com um aceno sem jeito, o rei confirma que não. A rainha olha para ele como se o visse pela primeira vez na vida

-Está apaixonado homem! Faz quase dois anos que conversa com esta moça.

Devem saber muito um do outro. Que espera para pega-la para você? Deixe adivinhar, ela não te quer.

O rei inseguro responde: - Será?

-Acaso perguntaste se ela te queria já? O rei acena que não com a cabeça. _Que confusão nesta sua cabeça meu querido rei. Precisas pensar no que vai fazer. Ou nem pensar e dizer logo tudo a ela.

A rainha surpresa com as revelações, não esperava que um dia isso acontecesse, mas aconteceu. Secretamente ela se sentia culpada por ter seu homem sempre por perto e o marido amigo era um solitário, tinha lá suas amantes, mas nada incomum. O que ela não entendia era o comportamento dele agora. O rei podia ser qualquer coisa, menos tímido.

Ela os via pela janela, sabia que se encontravam no jardim, todos no castelo sabiam.

Percebia que ele andava pensativo ultimamente. Pensava serem preocupações com as bodas do filho mais velho.

O rei muda de assunto. -Estou pensando em coroar nosso filho no dia do casamento, o que acha? A rainha arregala os olhos. -Quer passar a coroa já?

-Não cansas de ser Rainha? Saiba que ser a Rainha-mãe também tem suas vantagens.

Venho pensado em tirar este "peso" de nossas cabeças. Fizemos já nossa parte querida. Nosso filho vai gostar de ser rei, acredite. Pense, e depois conversamos mais sobre isso.

E a rainha pensou, e acertaram tudo para a coroação.

LONGA VIDA AO REI

No dia do casamento o povo teve um novo Rei e Rainha. E essa não trouxe nada, além de sua bagagem, quem sabe se o novo rei tenha a sorte de ser amado pela sua Rainha?

O velho rei comunicou ao povo  que viajaria por algum tempo, buscar novas terras e mais conhecimento. Assim com certeza ninguém estranharia sua ausência.

A Rainha mãe não poderia estar mais feliz. Desejou ao marido uma boa jornada.

Dizem que depois disso ninguém nunca mais ninguém viu o antigo rei. Somente um pai pescador, sabe o que se passou. E já era noite alta, quando alguém bate na porta do casebre e pergunta pela peixeira.

Um bêbado que ficou a festejar até tarde, andando cambaleante pelas ruas, vê aquele casal cruzando os portais da cidade de mãos dadas. Escuta aquele leve murmúrio.

-Nem sei ainda seu nome Peixeira

-Idalina. E o seu querido rei?

-Elias.

 

E esse era um tempo qualquer.

Ninguém é necessariamente para o que nasce. Pode ser somente para o que nasce, pode ser mais, ou pode ser menos.

Cada um é que sabe de si.

 

27
Jan19

NA SÃO PAULO QUE NUNCA PARA

Guerreira Xue

No coração pulsante da cidade
Na São Paulo que nunca para
As pessoas correm para o trabalho
Na tresloucada labuta diária
Viciados na rotina da ambiguidade

Aqui se busca um teto, um chão e pão
E o resgate de alguma dignidade
Escuto longe nas igrejas da cidade
Os sinos que se fazem anunciar
Em seus desejos inconfessáveis

Na falta do que pensar é melhor rezar
Aquela viagem que não aconteceu
Na beleza que se foi com o tempo
O amigo que vinha e não veio
O pai velho que doente, morreu
E toda reza parece um lamento

No coração pulsante da cidade
Tem a majestosa praça da Sé
Com seus mágicos e ambulantes

Missionários e curandeiros 
E os muitos Santos para toda fé
Vendendo e saqueando
Ao gosto que o freguês quiser
No coração pulsante da cidade

Na São Paulo de todos nós
O luxo e o lixo convivem
O pobre e o rico suportam-se
Mas tem a hora que o sol nasce
O céu milagrosamente pinta-se
E diante de tamanha grandeza
Somos todos iguais.
Imagem de Silvio Henrique Martins

12
Jan19

NASCE O DIA

Guerreira Xue

Quando o dia nasce
O céu se pinta
A pomba do campo grita
As janelas se abrem
E o coração se agita

Quando o dia nasce
O sol lá longe
Desponta
A gente se levanta
E muito insistente
O velho galo canta

Quando o dia nasce
Com ele nasce junto
Um mundo de esperança.

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